Fase saudosista: Outro artigo publicado no jornal Diário da Manhã, no dia 25 de setembro de 2008 (ou até o dia 30, não sei precisar). Era o início da avalanche da crise econômica de 2008, Henrique Meireles ainda era presidente do Bacen e Lula do Brasil. Tsunami no Japão era algo inimaginável.
Essa é a frase que melhor define a crise financeira americana: a privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos. As instituições financeiras, loucas para multiplicar a dinheirama que alguém um dia espalhou nesse mundão de meu Deus, quando viam os zeros à direita cada vez mais numerosos e brilhantes em suas contas de investimentos, não se preocuparam que um dia a fonte pudesse secar. Foram tantas especulações, contratos de risco somados à ganância norte-americana, que assistimos de camarote, aqui no emergente Brasil, a derrocada do Tio Sam. Sim, os Estados Unidos da América quebraram. E foi feio. E continua feia a situação por lá.
Agora, depois dos Brothers e da Merryll entrarem no vermelho (um quebrado e outro vendido às pressas para não ter o mesmo fim trágico do primeiro), e a maior seguradora do mundo pedindo no chapéu uma esmolinha de US$ 75 bilhões para se manter de pé, assistimos o Congresso Americano ser pressionado pelo Fed (Federeal Reserve, o Banco Central dos gringos americanos) para aprovar um pacote quase trilionário para salvar a economia do país que enche o peito e se declara o número um do mundo. US$ 700 bilhões é muita grana para salvar alguma coisa, e isso já demonstra que a crise lá não é das menores, e que os fatos revelados são apenas a ponta do iceberg. Creio eu, que tem muita sujeira escondida embaixo desse tapete...
Voltando aos zeros. Aonde está os lucros desses bancos que durante anos e anos devem ter acumulado milhões de dólares? O que foi feito desse dinheiro todo? Será que está investido em instituições de caridade, ou foi utilizado para construir casas para os sem-teto ou hospitais públicos? Lógico que não. Esse dinheiro foi muito bem gasto pelos executivos e acionistas das instituições, em carrões, viagens e casas de luxo, e que devem ter chamado de trouxas as pessoas que investiam e lucravam zerinhos, enquanto eles acumulavam zerões. Agora, na hora da quebradeira, eles querem dividir a conta com a sociedade. Claro, se o pacote de R$ 700 bi for aprovado, que estará custeando esse assalto aos cofres públicos é o cidadão estadunidense. O lucro é privado, mas o prejuízo é social. Aos trouxas, o prejú!
Quando o cidadão comum e honesto deixa de pagar uma prestação do bem adquirido, seja carro, casa ou até geladeira, o mínimo que acontece a ele é ter seu nome negativado nos SPCs e Serasas da dívida. Quando não, esse mesmo banco aí de cima, vai lá e toma o bem do trabalhador, que por uma adversidade alheia não pôde mais honrar o compromisso assumido. Aqui percebemos a gritante diferença da tal democracia que rege o capitalismo global: quem tem mais sempre pode mais. Quem tem menos não pode nada, mas tem o direito de aceitar calado.
E a crise americana já respinga em nós, distante milhares de quilômetros fisicamente, mas aproximados através de um fio da rede mundial de computadores. O impacto instantâneo é que o crédito já ficou mais caro. Os bancos reajustaram taxa essa semana, e nós, que nunca ouvimos falar ou realizamos investimos no Lehman Brothers ou no Merryl Linch, vamos pagar o pato, ou melhor, não haverá pato na ceia de fim de ano. O natal será mais caro em todos os aspectos, inclusive pela alta do dólar, mas isso é tema pra um outro artigo.
Tenho lá minhas dúvidas quanto a "pequena" interferência dessa conjuntura em terras tupiniquins, apesar do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmarem em coro que os impactos serão mínimos no Brasil, já que a nossa economia vai muito bem, obrigada. Vamos aguardar os próximos capítulos da novela, vendo as bolsas de todo mundo oscilar num piscar de olhos, para mais ou para menos. Logo logo mais sujeira sairá debaixo do tapete. O FMI já está cuidando disso. A humildade é uma qualidade que não cabe aos Estados Unidos, mas agora eles estão humilhados e envergonhados por saber que não são inabaláveis ou que não estão acima de tudo e de todos. E mais: eles vão precisar de ajuda alheia para dar conta de resolver os próprios problemas, como já estão fazendo os mega-investidores, que estão comprando os papéis podres e injetando bilhões de dólares para sanear a quebradeira.
Por fim, concordo com o presidente Lula: quem provocou a crise, que cuide dela! E que não venha a próxima.
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